terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Crónica: Nevões de areia do Zimbabwe em Portugal

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« Fiquei muito contente por saber que o presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, já está a ganhar algum polimento. Já começou a adoptar algumas medidas políticas não apenas racistas e nazis, como até aqui. Refinou-se um pouco ! Aprendeu alguma coisa com os nossos governantes, presumo. Já tomou, por exemplo, uma medida que parece aprendida com a nossa ministra da Educação.
A ministra cá decretou o abaixamento do nível de exigência dos exames de matemática e depois congratulou-se com o aumento das notas dos alunos em tão «difícil» disciplina graças ao seu trabalho. O Mugabe decretou que a epidemia de cólera que havia no Zimbabwe acabou. Por decreto, portanto, mas isso lá não interessa.
Não haverá mais mortos por cólera, porque ela foi extinta pelo Presidente. No Zimbabwe, a partir de agora, se alguém morrer de cólera a certidão de óbito deve dizer «ira» ou «nervos». A nós, portugueses, só nos falta habituarmo-nos a ser tratados como zimbabweanos. Mais quatro anos disto e vão ver quem souber 2+2 já entra em engenharia.

Os deputados faltaram a uma votação importante para a oposição e para o país. Mas isso é habitual (ia a escrever «normal», mas não me pareceu correcto). O que não me parece normal é haver uma série de deputados a justificar a coisa como normal e até o Presidente da Assembleia dizer que não poderá haver faltas, porque não faltar é uma questão de ética.
Por esta ordem de ideias não deverá haver multas para quem fala ao telemóvel no carro (na realidade parece que não há, de tal forma é «normal» ver gente a falar, principalmente naqueles carros de topo de gama...), nem penas de prisão para quem mata pessoas. É, também tudo uma questão de ética. Quando é que eles começam a perceber que já é demais a defesa irracional que fazem uns dos outros ? Já chegámos ao Zimbabwe ?! (...) »

in Crónica "Creolina" José Pedro Gomes

Ainda sobre a falta dos deputados - essa "pouca vergonha" - aqui fica a sátira dos Gato Fedorento:

(click na imagem para ver...)

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sábado, 20 de dezembro de 2008

E que tal... Atirarem OUTRO sapato ao Bush ? :)

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Pois é ! Segundo a impressa, mais de 4 milhões (!) de pessoas no Mundo já atiraram um sapato ao Bush, usando os diversos jogos que por ai circulam sobre este tema.

Para alem do primeiro jogo mostrado AQUI, há mais para jogarem ! Como por exemplo, este que agora mostramos.

Já podem divertir-se a dobrar, entre um jogo de xadrez e outro...


(click na imagem para jogar !)

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Vamos atirar um sapato ao George W. Bush ?

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Um jovem britânico criou um jogo na internet no qual podemos atirar sapatos contra o presidente George W. Bush.

O nome do jogo "Sock and awe" é uma paródia da operação americana lançada em 2003 para tirar Sadam Hussein do poder no Iraque: "Shock and awe".

O inventor é Alex Tew, de 24 anos, que já ganhou muito dinheiro na internet com a venda de pixéis na sua página.

Até agora, 1,4 milhão de sapatos (!) já foram atirados com sucesso, segundo o jovem.

O jogo baseia-se no incidente provocado pelo jornalista iraquiano Muntazer al Zaidi, do canal Al Bagdadia, que domingo passado atirou sapatos contra Bush durante uma entrevista à imprensa em Bagdad.

Click na imagem abaixo para começar a jogar e divirta-se !



Nota:
o jogo pode demorar um bocadinho a carregar. É que há fila para atirar sapatos ao Bush! :)))


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domingo, 14 de dezembro de 2008

Entrevista que passou quase na clandestinidade na SIC Notícias


Vejam esta entrevista que passou quase na clandestinidade na SIC Notícias com o Professor Medina Carreira.

O que interessa é se o Cristiano Ronaldo tem nova namorada ou se ganha a bota de ouro. Sócrates agradece !

Este Sr. é mesmo professor e não andou na Independente !

Este homem sabe do que fala e avisa sobre o que pode acontecer…


http://www.youtube.com/watch?v=Zyq7PmyGuBk

http://www.youtube.com/watch?v=PKaN1EIerQE

http://www.youtube.com/watch?v=zpTdTqSQ6cc

http://www.youtube.com/watch?v=FD1PZC9Br3A

http://www.youtube.com/watch?v=MnsufggVAIM

http://www.youtube.com/watch?v=JhE4cR-6j20


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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Carta Aberta à Ministra da Educação

Carta Aberta à Ministra da Educação

« Excelentíssima Senhora Ministra da Educação

Ao fim de três décadas e meia de docência, as políticas educativas do Governo do meu país levaram-me a pedir a aposentação antecipada e com penalização. Fugi da escola pública de hoje. A escola do facilitismo, da mediocridade, da desautorização dos professores, da desumanização, da irresponsabilidade, das estatísticas, da entrega dos deveres aos professores e dos direitos aos alunos,… Não foi para esta escola que dei tantos anos da minha vida. Nem foi assim que pensei terminar uma longa carreira de que gostei muito.

De Amarante a Matosinhos passando por Lisboa, Figueira da Foz, Porto, Espinho, Bragança, Marco de Canavezes, Vila Real, Barcelinhos, Penafiel, Famalicão e S. Pedro da Cova, ajudei a formar milhares de jovens. Foram muitos quilómetros percorridos quando não havia uma única auto-estrada. Mais do que uma vez tive que me sujeitar a ver as minhas três filhas pequeninas apenas aos fins-de-semana para ir, para longe, ensinar os filhos dos outros. Sem nada que me ajudasse a suportar as despesas. Tudo isto fiz com muito sacrifício mas muito gosto. Durante anos e anos amei o que fiz.

Para minha actualização frequentei mais de 50 acções de formação/seminários quer na área de informática, quer na minha área específica.

Fui Directora de Instalações, Representante de Disciplina, Delegada de Grupo, Directora de Turma, Vice-presidente do Conselho Executivo, Presidente do Conselho Administrativo, Representante de Área Disciplinar, Coordenadora de Departamento, Responsável pela Sala de Estudo, Presidente da Assembleia de Escola.

Leccionei todos os níveis de ensino desde o 5º ao 12º ano.

Orgulho-me do trabalho que sempre desenvolvi apesar do desânimo aumentar ano após ano. Nunca aspirei aos prémios que o Ministério atribui anualmente. Os meus prémios são as mensagens que recebo dos meus ex-alunos.

"Boa tarde professora,
Não sei se ainda tem esta conta de email activa, mas espero que sim. Eu sou o seu antigo aluno Eduardo …, fui seu aluno de química no ano lectivo de 2004/2005, não sei se ainda se lembra de mim. Eu estou a acabar o meu curso na faculdade, estou já no ultimo ano e sou finalista, como tal, temos a tradição de assinar as fitas e eu gostava que a professora me assinasse a fita, uma vez que a considero a melhor professora que tive ate hoje, pois sempre acreditou em mim e fez todos os possíveis para me ensinar, não só a matéria correspondente a sua disciplina, mas também a ser um homem decente. Para alem de excelente professora, foi também uma grande amiga, que e algo que muitos professores não são e por isso gostava que me desse a honra de me assinar a fita. A minha queima das fitas é já esta semana e tenho de ter as fitas no dia 27, por isso peço resposta a este email o mais rápido possível, caso a professora não possa assinar-me as fitas antes dessa data, não há problema, assina depois pois o que conta para mim é que a fita seja assinada, independentemente da data. Gostava também de lhe pedir um favor…

Peço desculpa pelo incómodo e espero atentamente uma resposta.

Beijos e abraços, do seu antigo aluno e amigo,

Eduardo …"

Ou como esta recebida há dias quando chegou a minha aposentação.

"Soube ontem ao último tempo que a professora tinha recebido a carta da reforma. Vou ser sincero, fiquei muito triste por perder uma das melhores professoras de sempre.
Paciente, simpática, honesta, humilde…. são muitas das características que a professora tem.
A escola perdeu uma das melhores professoras ao serviço.
Pessoalmente n estou triste por perder uma professora mas sim estou triste por ter perdido uma grande amiga que me ajudou sempre.
Toda a turma ficou um bocado triste (embora querendo disfarçar através de sorrisos e risos), pois tem a consciência que vai ser difícil substituir uma professora como a s'tora.
Diz-se que ninguém é insubstituível, mas a professora é das poucas pessoas que não podem substituídas por nada deste mundo.
Aqui está á minha despedida muito humilde, não é que desejaria dar á professora pois o que lhe queria dar está para além dos meus alcances.
Só deixo votos de felicidade e desejos que um dia nos voltemos a encontrar.
Muitos beijos e abraços:
Bruno …"

Pelos Eduardos, pelos Brunos e por todos os alunos que já me passaram pelas mãos, e que me atribuíram "medalhas" aguentei enquanto pude. Agora, acabou.

Numa quinta-feira de Novembro fui chamada para uma substituição. Não havia plano de aula. A professora em causa tinha acabado de receber a sua aposentação antecipada e com penalização. Uma professora que já estava na escola quando para lá fui e eu estive lá 20 anos. Dirigi-me à sala de aula. Estavam os (talvez) 28 alunos de uma turma do 7º ano que não conhecia. Muitos choravam e diziam "A Professora M. era nossa amiga. Ensinava bem e ajudava-nos muito".
Estes alunos só conheciam esta professora desde meados de Setembro.
Em contraste com isto, a professora estava num sino. Irradiava felicidade e até as lágrimas lhe vieram aos olhos de tanta alegria. Finalmente estava livre do inferno que se vive hoje nas escolas.
Analisando esta situação, só se pode concluir que algo está errado. Uma pessoa que dedicou uma vida ao ensino, uma professora de quem os alunos gostam ao ponto de chorar a sua saída, abandona a profissão de uma vida sem tristeza e com penalização na sua reforma. A debandada é geral e os que estão a sair são os mais experientes.

Vi e ouvi, com tristeza e uma revolta imensa, as posições inqualificáveis de membros do Governo perante a manifestação de 85% dos docentes do meu país. Não consigo aceitar que me apelidem de chantagista com uma leviandade sem nome. Não sou sindicalizada nem filiada em nenhum partido. Sempre pensei pela minha cabeça, disse o que penso, escrevi o que disse e assumi o que escrevo. Durante anos escrevi uma crónica mensal num semanário e insurgi-me contra a avaliação em vigor na altura. Realmente tinha que ser substituída. Mas por uma melhor, o que não é o caso. A mobilização que se conseguiu em Março a em Novembro não foi conseguida pelos sindicatos. Eles não têm capacidade para tal. A internet e o telemóvel são hoje os melhores meios de mobilização. A Senhora Ministra consegui, pela primeira vez, unir os professores e pô-los em contacto permanente uns com os outros.

O dia a dia de um professor é inimaginável por quem não o vive, como é o caso da Senhora Ministra. Pede-se aos professores que sejam, para além de transmissores de conhecimentos, mães, pais, psicólogos, assistentes sociais, amigos, …

"Os professores têm, cada vez mais, à sua frente um conjunto de órfãos de pais vivos." - uma verdade que li aqui há tempos.

Mas pede-se mais. Pede-se aos professores que apliquem um ensino individualizado a turmas com 28 alunos num número de aulas que não chega para leccionar os conteúdos programáticos estupidamente extensos. Pede-se o impossível. "Dar aulas, de facto, é tão simples como falar trinta e cinco línguas ao mesmo tempo ou cantar sozinho uma partitura para trinta e cinco vozes". (Bernard Houot)

Para esta super-escola eram precisos super-homens e super-mulheres e isso só existe na banda desenhada.

"Nós somos como somos, com altos e baixos. Com momentos de entusiasmo e momentos de quebra. Com rasgos de génio e sombras travessias do deserto. E ninguém poderá nunca tornar-nos perfeitos. Se nos pedem para sermos perfeitos é, pois, abusivamente porque o sistema que se encontra acima de nós não o é." (Bernard Houot)

Que posso eu exigir de um aluno que vive com uma mãe com problemas mentais que lhe diz que o odeia e que o quer matar? E de uma jovem que chega às aulas da tarde sem ter comido absolutamente nada? E de uma jovem que vive, a meias com a mãe, com outro homem que não o pai? E de uma criança que dorme na sala e só pode descansar quando os pais resolvem deitar-se? E da jovem que fica a trabalhar no café dos pais até às tantas da madrugada? E poderia ficar aqui um tempo infindo a pôr a nu as situações com que os professores se debatem. Esta é a escola real. Uma escola cheia de problemas cuja resolução compete ao Estado mas com os quais os professores vivem diariamente. Estes jovens não podem ter o rendimento desejável mas, pressionar o professor a passá-los, não lhes resolve os seus problemas. Como não lhes resolve os seus problemas um computador oferecido pelo Governo. Ou o TGV. Ou um novo aeroporto na capital. Mas quem pode manda e define as prioridades que entende. Não são as minhas e não as entendo.

Para juntar a tudo isto, a Senhora Ministra elaborou um modelo de avaliação perfeitamente inaceitável. Diz a Senhora Ministra que os professores devem confiar nos seus colegas mais competentes (refere-se aos professores titulares) mas quem lhes atribuiu essa competência foi a Senhora Ministra ao pôr em prática o mais escandaloso dos concursos - o primeiro concurso para professor titular. "Há coisa mais injusta do que uma avaliação que não premeia o mérito?" - perguntou um dia destes a Senhora Ministra. Claro que não. Mas, pergunto eu, há maior injustiça do que o primeiro concurso para professor titular? E foi com base neste concurso, eivado de injustiças e arbitrariedades, que foi construído este modelo de avaliação. Sobre alicerces podres. Por mais voltas que lhe dêem, será sempre um modelo de avaliação em que a competência estará ausente.

Para o acesso ao cargo de professor titular não era preciso ser competente em nada. Bastava ter tido muitos cargos entre 1999 e 2006. Por que razão foram escolhidos estes anos e não todo o percurso dos docentes? Só a Senhora Ministra sabe. No meu caso, professora do topo de carreira, a Senhora Ministra deitou-me, pura e simplesmente, ao lixo mais de 25 anos da minha carreira. Consegui, apesar disso, ser provida como professora titular. Por acaso, como todos, e não por mérito, como gostaria. É a isto que a Senhora Ministra chama justiça? É a isto que a Senhora Ministra chama competência? Este concurso criou nas escolas situações inaceitáveis.

Um professor com 100 pontos, numa Área Disciplinar, ascende a professor titular e, na mesma escola, outro professor com 140 pontos, numa outra Área Disciplinar, não o consegue.

Um professor do 10º escalão que tenha exercido todos os cargos possíveis numa escola antes de 1999 mas que entre 1999 e 2006 foi apenas professor, por melhor que tenha sido, não ascende a professor titular.

Um professor do oitavo escalão que, por exemplo, por não ter horário na sua Área Disciplinar, integrou um cargo no Conselho Executivo mesmo que o tenho exercido sem competência, foi provido como professor titular.

Neste momento, este último professor pode ser avaliador do anterior.

Um professor que foi orientador de estágio pode vir a ser avaliado pelo seu avaliando de estágio, desde que o segundo tenha conseguido ascender a professor titular e o primeiro não.

Mas o descalabro a que a educação chegou não se limita a estes problemas.

A Lei 3/2008 de 18 de Janeiro é uma perfeita aberração. Trata da mesma maneira um aluno que falta por doença e outro que falta porque lhe apetece. No Despacho do domingo, dia 16 de Novembro de 2008, a Senhora Ministra, mais uma vez remete as culpas para os professores quando diz "que a adaptação dos regulamentos internos das escolas ao disposto no Estatuto do Aluno nem sempre respeitou o espírito da Lei, permitindo dúvidas nos alunos e nos pais acerca das consequências das faltas justificadas designadamente por doença ou outros motivos similares." A lei é clara pelo que não é aceitável estar no despacho "Tendo em vista clarificar os termos de aplicação do disposto no Estatuto do Aluno…". Sejamos honestos, o Despacho altera a Lei, se é que juridicamente isso é possível.

O Programa Novas Oportunidades é outro embuste. Por aquilo que vejo, e pelas pressões das DREs para aprovar todos os alunos dos Cursos de Educação e Formação, dos Cursos Profissionais e Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, estão a qualificar-se milhares de analfabetos. Será isto que o país precisa, Senhora Ministra?

Segundo a Senhora Ministra, a implementação das aulas de substituição, que tanta polémica gerou, hoje faz-se confortavelmente. Engano, Senhora Ministra. Os professores que conheço, e são muitos, fazem-no porque a tal são obrigados mas fazem-no sem o mínimo de conforto e com o máximo descontentamento dos alunos.

O ambiente que se vive nas escolas é de uma tensão imensa. O desalento e a desmotivação são gerais e o clima de medo está instalado. E ainda vai piorar quando aparecer a figura do director prevista na lei.

O que se fez da escola pública? Como se pode ter toda uma classe profissional desmotivada? Eu saio sem conseguir perdoar a este Governo o ter-me roubado o prazer que eu tinha em exercer a profissão que escolhi. Nestes últimos anos foi muito penoso ir trabalhar. Muito penoso, mesmo. »

Maria da Graça Pimentel

9 de Dezembro de 2008

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

60 anos: Declaração Universal dos Direitos Humanos



Ontem comemorou-se o 60º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos e o 10º Aniversário da entrega do Prémio Nobel de Literatura a José Saramago.

« Por toda a parte, num último e talvez desesperado intento para travar a ameaça, milhões de pessoas decidiram descer à rua em Março de 2003 a fim de protestar contra a iminente invasão do Iraque. Não lhes serviu de nada. Cinco anos passaram já e o estado de guerra continua, prevendo-se agora, resta saber com que fundamento, que os ocupantes norte-americanos se retirarão do país em 2011. Vencidas, de alguma maneira humilhadas, essas pessoas, milhões, repito, regressaram às suas casas sob o peso da mais desoladora das frustrações. De uma delas, quase em lágrimas, ouvi então esta ansiosa pergunta: “E agora, que fazemos, que podemos nós fazer?” Quase sem ter de pensar, respondi-lhe: “Queres uma causa? Tens aí os direitos humanos.” A sugestão foi recebida sem entusiasmo, quase com indiferença, o que não me surpreendeu, dado que a questão dos direitos humanos é geralmente entendida como algo remoto, fora do alcance, uma outra espécie de utopia, inacessível como quase todas. Na verdade, não me consta que a minha lacrimosa interlocutora haja seguido o conselho…

Há dez anos, em Estocolmo, precisamente no dia 10 de Dezembro de 1998, quando em todo mundo se estavam celebrando os cinquenta anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, chamei a atenção dos mil e duzentos convidados que participavam no banquete de encerramento dos actos solenes relacionados com a atribuição do Prémio Nobel, para a situação em que os ditos direitos se encontravam, ignorados na prática pelos governos, desprezados grosseiramente pelos poderes económicos e financeiros soberanos, perante a apatia geral de uma sociedade, que, no fundo da sua consciência, talvez já não acredite, se alguma vez teve essa ilusão, no cumprimento ao menos satisfatório dos preceitos consignados naquele documento.

A situação não melhorou ao longo destes anos, podemos até dizer que se agravou seriamente, ao ponto de já nos parecerem despropositadas, em todos os sentidos, quaisquer manifestações públicas ao redor da efeméride. O mundo não daria pela falta se a Declaração fosse dada amanhã como nula e inexistente. O seu desaparecimento físico viria apenas confirmar a realidade objectiva da ineficácia de um texto cheio de boas intenções, reduzidas hoje a zero pela inoperância das entidades políticas responsáveis, a começar pelos governos e a terminar nas próprias Nações Unidas.

E, contudo, a nós, cidadãos comuns, não nos resta outra atitude que defender por todos os meios a Declaração Universal dos Direitos Humanos e exigir em todos os foros o seu urgente cumprimento, sob pena, persistindo a passividade colectiva, de vir a perder-se a própria noção de direito em matéria tão importante como a plena realização da pessoa. É necessário que se torne em evidência e em instrumento de acção política este simples axioma: “É certo que sem a democracia não poderia haver direitos humanos, mas também não é menos certo que sem direitos humanos não poderá haver democracia”. Sim, leram bem, sem direitos humanos não haverá democracia digna desse nome. Portanto, lutar pelos direitos humanos é, em última análise, lutar pela democracia. »

José Saramago

Fundação José Saramago


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

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« A história de Dias Loureiro é um puzzle que ajuda a explicar muito do que tem sido Portugal desde 1985, data da sua ascensão ao poder. Um homem com um percurso de luzes e sombras, que se confunde, por vezes, com as zonas cinzentas de um regime...»



« Quando eu era pequenino…

É uma das figuras mais poderosas do País. Mas sempre disse não ser um homem «do poder político». Fez fortuna de quase nada e até além-fronteiras lhe dão tratamento VIP. Priva com Clinton, Aznar, Durão Barroso e outros dos homens mais poderosos do planeta, alguns com actividades e práticas bastante controversas. Apanhado pelos estilhaços do «caso BPN», tem-se defendido nos fóruns que lhe foram postos à disposição, reafirmando inocência e comportamento acima de qualquer suspeita. À VISÃO, recusou prestar declarações por considerar «encerrado» o capítulo das entrevistas e esclarecimentos e estar «cansado de dizer uma coisa e sair outra». Agora, adiantou, só falará «noutras instâncias». Mas quem é, afinal, Manuel Dias Loureiro e como personifica, para o bem e para o mal, os poderes reais e paralelos do nosso país?

Dias Loureiro é natural de Aguiar da Beira, terra pequena, pobre e rural, com um castelo altaneiro, onde nasceu, a 18 de Dezembro de 1951. Os pais eram comerciantes (a mãe tinha alguns estudos, mas o pai completou apenas a quarta classe) e vendiam de tudo um pouco, desde tecidos a materiais de construção, incluindo artigos de mercearia. Tinha sete irmãos. Em pequeno, gostava de comer batatas fritas em azeite, ovos estrelados e pastéis de massa tenra.

Aos 9 anos, foi fazer a 4.ª classe num colégio interno em Lamego – não muito longe de casa, mas o suficiente para só ver a família nas férias de Natal, Páscoa e Verão. Ali, os hábitos eram muito rígidos: os alunos levantavam-se às 6 da manhã e havia regras para tudo e hierarquias bem definidas. Nas férias, quando regressava à terra, ajudava os pais e os irmãos no pequeno comércio, todos os dias, incluindo aos domingos.

Seguiu-se uma passagem de dois anos pelo seminário de S. José, em Fornos de Algodres, não porque, segundo diz, quisesse ser padre, mas porque assim tinha uma oportunidade para estudar. A mãe, contudo, ainda hoje está convencida de que ele queria mesmo seguir o sacerdócio, pois, nas suas brincadeiras de criança, «vestia uma saia branca da avó ou enrolava um pano branco à volta do corpo e depois dizia homílias».

Passou ainda pelos colégios de Mangualde e de Tondela, antes de ir para Coimbra, tirar Direito. Por esta altura já não tinha dúvidas de que queria ser advogado para «não ter patrões» e manter a sua independência. A militância na Juventude Universitária Católica foi coisa normal para quem vinha de um meio católico. As leituras de Faulkner e de Open Society, de Karl Popper, viriam, depois, a ter grande influência nas suas ideias e opções.

Coimbra tem mais encanto…

Foi na hora da despedida que Coimbra teve mais encanto para Dias Loureiro. Desde a ida ao congresso da Figueira para apoiar Cavaco, em 1985, foi sempre a subir. Até aí, porém, tinha vivido tempos difíceis. Pouco depois de chegar à cidade, morreu-lhe o pai, com um cancro, em apenas três meses. E perderia o irmão e um tio, quase de seguida. Tempos de algum aperto financeiro também. «Na altura, alguns de nós já tinham carro, mas ele vinha todos os fins-de-semana de Aguiar da Beira sempre de camioneta e vestido de forma muito simples, com umas samarras muito coçadas. Via-se que não tinha muito dinheiro», descreve um colega de curso. Pouco tempo depois de se ter formado em Direito, as idas a casa, no final da semana, começaram a escassear. Recordam-se dele como um estagiário de advocacia que arrebanhava as defesas oficiosas que pudesse, a fim de equilibrar o orçamento. Ao contrário de outros, ele não tinha pergaminhos familiares na advocacia, e «ia a todas, era impressionante», admira-se um desembargador.

No início dos anos 80, os amigos de esquerda e extrema-esquerda tinham ficado para trás. Já militante do PSD, pela mão de Carlos Encarnação – que viria a ser seu secretário de Estado –, Dias Loureiro morava no segundo andar de um prédio comum, com as suas duas filhas e mulher, Fátima Varandas, de quem se divorciou há poucos anos. Ele terá sido pescado para a política pelo líder do PSD/Coimbra, Alexandre Gouveia, em cujo escritório de advocacia trabalhou. «Num ápice, tornou-se adjunto do governador civil e nunca mais ninguém ouviu falar dele como advogado», conta outro juiz. Ângelo Correia, então ministro da Administração Interna, terá dado uma mãozinha na escolha.

Tudo pelo partido

De dirigente do PSD, com Cavaco, a redactor de moções e estratego de vários líderes, o poder e a influência de Dias Loureiro no partido cresceu de forma avassaladora. Foi secretário-geral, numa época em que coleccionou sucessos para o PSD, o dinheiro entrava com mais regularidade no partido «e o financiamento partidário não tinha, praticamente, controlo», explica um ex-titular daquele cargo. Mas o início foi complicado. O comendador Salvador Pereira, emigrante português radicado na África do Sul desde 1964, homem de sucesso nos negócios, sobretudo na área da construção civil, garantiu à VISÃO ter, naquele período, «ajudado como podia. Sempre fui fiel ao PSD e paguei algumas coisas, na altura, as finanças do partido não estavam boas». Diz conhecer Cavaco «desde os tempos de ministro das Finanças» e foi mantendo contactos, em algumas ocasiões, várias das quais solenes. Já com o professor como primeiro-ministro, Dias Loureiro foi-lhe apresentado. «É um bom homem. Ajudou-me num negócio relacionado com a hemodiálise que eu queria montar em Portugal, recomendou-me que fosse ter com o irmão dele para ser nosso advogado e tratar da papelada. Mas as coisas acabaram por não se concretizar», explica, precisando ter perdido «mais de 30 mil contos» só em contactos e burocracias. Amigo de José Cesário, ex-secretário de Estado das Comunidades e antigo adjunto de Dias Loureiro na secretaria-geral do partido, Salvador Pereira garante ter estado sempre disponível para ajudar o PSD, nas suas vindas a Portugal e também na África do Sul. «Passou muita gente por cá e saíram daqui sempre bem agasalhados, nunca lhes faltou nada.» O empresário, natural da Feira, referiu à VISÃO ter-lhe sido igualmente proposta a compra da nova sede, «por mais de 100 mil contos. Pensei, mas disse que não».

No exercício do cargo, uma das marcas deixadas por Dias Loureiro foi precisamente a compra da actual sede do partido, por 100 mil contos, com a ajuda dos militantes, os quais receberam uma carta a pedir uma contribuição financeira. Apesar disso, a sede só acabou de ser paga depois de Dias Loureiro sair. Dessa altura há ainda, segundo um funcionário do partido, a história da compra de um carro blindado para uso do presidente do PSD, a instalação de vidros com dois ou três dedos de grossura no gabinete da presidência e a colocação de portas de ferro na sala da Comissão Política. Estas extravagâncias terão sido propostas por Luís Geraldes, um dos homens que Dias Loureiro escolheu para seu secretário-geral adjunto, que vinha da África do Sul e vivia aterrorizado com a hipótese de o caso Camarate se repetir.

Meu adorado Cavaco

Dias Loureiro esteve com Cavaco desde o dia zero até à altura de arrumar as tralhas da campanha presidencial. As histórias de vida ajudaram: «Não nascemos em berço de oiro», esclareceu, um dia, o ex-gestor do BPN. O professor escolheu-o, em 1985, para secretário-geral, com as finanças do partido nas lonas e sem poder à vista. A vitória nas legislativas daquele ano mudaria tudo. A partir daí, Dias Loureiro foi o fiel servidor de um chefe que, segundo diz, não agia como chefe.

Por ele, pelo PSD, fez de tudo. De hinos a discursos preparados madrugada dentro, com chávenas de chá pelo meio, para Cavaco ler depois. Partilharam a restrita intimidade do poder, férias, tacadas de golfe e almoços de família em São Bento. A empatia ajudou à influência do discípulo. Segundo um ex-governante e actual deputado «laranja», Maria Cavaco Silva também «tinha a sua preferência», inclinando-se «para os jovens turcos [como Loureiro] e menos para os que falavam baixinho e davam conselhos avisados e moderados». Algo «altamente comentado nos círculos mais restritos». Laços nunca quebrados e extensivos a outras pessoas: no gabinete da primeira-dama, em Belém, trabalha hoje Diana Ulrich, antiga assessora de Dias Loureiro. A gratidão de Cavaco também assumiu várias formas. Como Presidente da República, cortou a fita da fábrica da Inapal, em Palmela, elogiando o investimento da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), na presença de Dias Loureiro. E até a inauguração do Estádio Municipal de Aguiar da Beira fez parte da agenda do PR, em Maio do ano passado. «Tenho adoração por ele, de facto», reconheceu o ex-ministro. A única vez que se desencontraram foi, talvez, em confissão. Na sua autobiografia, Cavaco revela não ter convidado Dias Loureiro para o Governo, em 1987, «pela simples razão de não poder prescindir dele no partido». Uma decisão recebida com desgosto. «Foi parco em palavras e fiquei com dúvidas sobre se ele compreendia e aceitava os meus argumentos.» Já o então dirigente diz ter recusado um convite de Cavaco para ministro da Administração Interna, quando ainda era secretário-geral, pois não queria acumular funções no partido com a tutela do SIS. Confusão de datas? Certo é que, pelo menos no «caso BPN», Cavaco acredita «solenemente» na palavra de Dias Loureiro.

Luxos e prazeres caros

«Quando se sai do Governo, precisa-se de ganhar dinheiro, é verdade. Mas passados cinco ou seis anos, tinha o suficiente para não ter de me preocupar com isso», explicou Dias Loureiro. Há dias, reafirmou à RTP que, em 1995, «não tinha dinheiro nenhum». Onze anos depois, a jornalista que entrou no seu gabinete a pretexto de uma entrevista para o Jornal de Negócios viu um espaço que exalava «bom-gosto e dinheiro», com quadros de Cargaleiro e Vieira da Silva. Em 2002, foi noticiado que pagava mais impostos do que o empresário Belmiro de Azevedo.

O curioso é que, em 1991, Dias Loureiro já tinha comprado e remodelado uma vivenda, no Estoril, por 150 mil contos. A origem do dinheiro para a compra e obras foi questionada pelo Expresso, sobretudo porque a casa anterior era em Sete Rios, Lisboa, e custara 9 600 contos. Poderia um vencimento modesto de governante e de advogado em part-time suportar tamanho luxo? «Quem não tem a consciência tranquila em relação ao dinheiro pode tentar escondê-lo. Quem tem a consciência tranquila pode fazer o que entender», disse, então, o detentor da pasta dos Assuntos Parlamentares. E justificava a mudança para a casa da Linha de Cascais com uma herança e venda de propriedades em Coimbra. Avô e divorciado, vive actualmente na quinta Patiño, no Estoril, uma das zonas mais privilegiadas e caras do País (diz-se que cada metro quadrado de terreno custa 5 mil euros), onde residem pessoas da alta sociedade como Rocha Vieira, João Rendeiro, Diogo Vaz Guedes, Stanley Ho ou Stefano Saviotti.

A Dias Loureiro não faltam, igualmente, gostos caros: há uns anos, comprou um Mercedes CL 65 AMG, prateado, com um potentíssimo motor V12. Trata-se de um modelo altamente exclusivo, o mais luxuoso da marca alemã. Em Portugal, não devem existir mais de dez unidades. Custo? Cerca de 275 mil euros. Gasta uns «meros» 14,8 litros por cada 100 km percorridos. As motos também já o entusiasmaram. Preocupante, porém, foi a polémica à volta da sua carta de condução. Em 1995, então ministro da Administração Interna, foi noticiado que a licença havia sido aprovada pelo próprio director-geral de Viação… antes do exame, feito num quartel da GNR, com uma moto da corporação.

Paixão, paixão, é a caça, sobretudo de perdizes. Mas não as come, preferindo distribui-las por amigos. Começou aos 19 anos, nos tempos da faculdade, e, mais tarde, juntou-se a Proença de Carvalho e Carlos Barbosa, com quem detém um couto em Mértola. Foi ele que iniciou Cavaco na caça. Há quem assegure que já participou em caçadas milionárias, em África, daquelas que podem chegar a custar 100 mil euros e que incluem acampamentos, jipes e perseguições. O próprio diz preferir aves. «Nada de caça grossa.»

Após sair do Governo, Dias Loureiro iniciou-se no golfe e pratica-o normalmente, entre as sete e meia e as nove da manhã, perto de casa, no campo do Estoril. Até nas viagens de negócios, seja a Marrocos seja a Palma de Maiorca, aproveita para dar umas tacadas. «O golfe liberta a cabeça», explica. Também gosta de jogar póquer. Ou gostava, pelo menos. Sempre com os amigos e desde que não envolvesse muito dinheiro. Os prémios costumavam ter limites e raramente iam além dos cem contos.

Laços de ternura…

Amigos há mais de 40 anos, Jorge Coelho e Dias Loureiro são praticamente da mesma terra. Tratam-se como irmãos. «Éramos uns brincalhões. Jogávamos futebol e comíamos pastéis de feijão numa casa, junto da escola», contou Coelho ao Jornal de Negócios, já este ano. «Passados 22 anos, reencontrámo-nos e estreitámos relações. Hoje, é um dos meus melhores amigos.» Ambos confrontaram ideias no Correio dos Senadores do jornal Correio da Manhã e até já partilharam a presidência, em 2002, do grupo parlamentar de amizade entre Portugal e Espanha. Coelho sucedeu a Loureiro na Administração Interna. Em quase 35 anos de democracia, durante oito anos alguns dos maiores segredos do País estiveram «guardados»…. por esta dupla inseparável.

Loureiro foi uma das primeiras pessoas a saber que Coelho tinha um cancro. E fez das tripas coração para o ajudar. Ligou a Durão Barroso, este mexeu os cordelinhos em Paris e, dois dias depois, Coelho partia para França a fim de ser visto por um grande médico, a quem Chirac tinha ligado pessoalmente. Coelho confirmou, entretanto, à VISÃO que «há uns cinco anos» pediu «um empréstimo pessoal de 100 mil euros» ao BPN, na altura mais complicada da sua vida. Possui também uma conta na instituição, num balcão de Lisboa. A escolha, explica, resultou do facto de o gerente do balcão ser seu amigo de longa data, facilitando-lhe assim «o despacho rápido» do pedido. «Já não devo nada e paguei tudo direitinho. Neste momento, sou um mero cliente e talvez dos piores», garantiu.

Proença de Carvalho é outro amigo de Loureiro e ambos dão largas à veia de poetas e artistas de variedades. Já gravaram um CD com estas aventuras. Mais a sério, Proença foi o advogado escolhido pelo BPN para processar a revista Exame, quando Dias Loureiro se sentiu «incomodado» com as primeiras notícias sobre o banco, em 2001. Houve acordo e o caso foi enterrado.

Com Aznar encontra-se de vez em quando, incluindo em sua casa. O genro do ex-chefe de Governo espanhol, Alejandro Agag, foi assessor do antigo ministro de Cavaco, no BPN. Agag, ex-vice-presidente do Partido Popular Europeu (PPE), terá facilitado a integração do PSD naquele grupo de eurodeputados e a amizade com Durão Barroso virá desses tempos. Dias Loureiro já jantou e jogou golfe com Bill Clinton.

Com jornalistas, o ex-ministro também nunca se deu mal. Paulo Portas incluído, mesmo no tempo em que as manchetes d'O Independente demitiam ministros. Ou, se calhar, por causa disso, quem sabe? Cavaco não gostava desses relacionamentos dele, no período em que governou e deixou isso registado na sua autobiografia. Baptista-Bastos, de quem Dias Loureiro foi testemunha abonatória, num processo em que o queixoso era Alberto João Jardim, é outro dos seus amigos: «Detestava-o e disse-lho quando o conheci. Até lhe falei no rosto sombrio que ostentava, o que lhe conferia um ar sinistro.» BB ouvira-o, numa manhã de sábado, na rádio: «Ele possuía uma ampla informação política, económica, social e cultural do País. E desenvolveu as suas ideias, associando-as com uma forte componente social-democrata, à maneira, por exemplo, de Willy Brandt e de Olof Palme.» Vai daí, BB escreveu um artigo sobre isso e Dias Loureiro telefonou-lhe de Nova Iorque. Depois disso, foram-se encontrando, entre almoços e uísques, por vezes com Duarte Lima a juntar-se-lhes. Conheceu um Dias Loureiro que «se interessava por livros, pintura e música. E, sobretudo, por pessoas. Ajudou, desinteressadamente, muitas pessoas, entre as quais alguns nossos camaradas de Imprensa, que, neste momento, o ignoram ignobilmente», observa.

Dormindo com o inimigo

Em termos comparativos, Dias Loureiro tem feito mais pela boa imagem do PS e de Sócrates do que Manuel Alegre. Críticas, só à lupa. Nos últimos anos, o antigo governante do PSD foi todo mesuras com o rumo traçado pelo Executivo e saiu a terreiro em defesa do primeiro-ministro. «Se há coisa de que o Governo não pode ser acusado é de querer a todo o custo ganhar votos», afirmou, numa entrevista. Já recusou fazer uma análise «tremendista» e «catastrofista» da gestão do País, censurou a liderança de Marques Mendes por fazer uso do caso da licenciatura do chefe do Governo e emocionou-se com O Menino de Oiro do PS, a biografia autorizada de Sócrates. No lançamento público da obra, elogiou a afectividade, generosidade, sensatez, prudência e coragem do primeiro-ministro, cujo optimismo «faz bem ao País». Já na sequência dos episódios do BPN, Sócrates terá pedido ao PS para poupar nas críticas a Loureiro e outros «cavaquistas» citados nas polémicas sobre o banco. De resto, segundo o histórico socialista António Arnaut, Loureiro é dono da «tradicional irreverência coimbrã», ou seja, «dá-se bem com todos». É amigo de Jorge Coelho desde pequenino (ver outros textos) e também o foi do falecido dirigente Fausto Correia, que o considerou homem de honra, trabalho, «do poder e com poder». No Natal de 2000, editou um disco para amigos, com Almeida Santos. O ex-ministro deu voz a um bolero e à canção Pomba Branca. Na música como noutras matérias, o bloco central não desafina. E só Alfredo Barroso, ex-assessor de Mário Soares em Belém, se atreveu a outras sonoridades: «Nunca percebi as obscuras razões que justificam a credibilidade e a fortuna – políticas, entenda-se! – de que o doutor Dias Loureiro hoje goza», escreveu, em 2001.

Chamem a polícia

O caso da carga policial na ponte 25 de Abril, em 1995, por causa da polémica das portagens marcou o fim do cavaquismo. Mas Dias Loureiro achará que resolveu alguns dos dilemas desse período, quando comprou uns quadros ao homem que ficou paraplégico, na sequência dos incidentes. No Ministério da Administração Interna, entre 1991 e 1995, é recordado como o «ministro que mais perseguiu e aterrorizou os sindicalistas dentro da polícia», atesta Paulo Rodrigues, líder da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP). Vários processos disciplinares foram instaurados e três líderes associativos foram expulsos. Os processos acabariam arquivados, dois deles após a vitória socialista, em 1995. A repressão da actividade sindical na PSP foi, segundo aquele dirigente, a imagem de marca de Loureiro. As superesquadras, a menina dos olhos do seu mandato, foram contestadas por populações e elementos da ASPP. «Havia instruções ministeriais dadas às chefias para transmitirem aos agentes: ‘se não largares a ASPP, vais ter chatices’», conta Paulo Rodrigues. Mal-amado pelas tropas, foi admirado pelas chefias. Alguns oficiais recordam-no como «um dos ministros mais competentes», «atencioso e preocupado» com os subalternos.

Do segredo reza a história?

Dias Loureiro seguia com o «maior interesse» o trabalho e os resultados da actuação dos serviços de informação que tutelava, diz quem o acompanhou de perto nesse período. Mas as incompatibilidades com Ladeiro Monteiro – uma espécie de «pai» do SIS e seu director desde 1986 – começaram cedo. O prestígio histórico do director retardou o afastamento, que só aconteceria em 1994, na sequência da espionagem do SIS a dois magistrados do Ministério Público da Madeira. Para o seu lugar, Dias Loureiro nomearia o seu amigo Daniel Sanches, ao mesmo tempo que remodelaria, também, a chefia da secreta militar, entregando-a ao seu conterrâneo e também amigo Lencastre Bernardo.

Se o SIS já andava em bolandas com insinuações de práticas pouco ortodoxas e de trabalhar a favor do Governo, com a entrada de Sanches as acusações subiriam de tom, dada a proximidade – «cumplicidade», referem dois magistrados – entre o ministro e o novo director. Dentro do SIS, o ambiente deteriora-se, sobretudo após alegadas instruções para vigiar e identificar dinamizadores de manifs e protestos contra o Governo. Dias Loureiro não se livra da fama de querer dossiês pormenorizados sobre figuras de vários quadrantes. Ainda hoje, há quem o considere intocável, dada a relevância de documentos que terá guardado em lugar seguro, fora do País, segundo pessoas das suas relações. «Muita gente lhe deve favores», atesta um magistrado que esteve ligado aos serviços de informações. Confrontado, ao longo do tempo, com a fama granjeada, os métodos usados e os proveitos conseguidos, Dias Loureiro reagiu sempre com indignados desmentidos.

Informação é poder

Em Fevereiro de 2001, poucos dias após ter sido nomeado administrador da SLN, Dias Loureiro convidou Daniel Sanches e Lencastre Bernardo para os quadros da holding detentora do BPN. Ou seja, só dois dos maiores peritos nacionais em espionagem e informações. Segundo fonte judicial, eles «tiveram acesso aos mais valiosos segredos políticos, económicos e empresariais», enquanto estiveram à frente das secretas, informação «do mais alto calibre».

No caso do procurador-geral-adjunto Daniel Sanches, o caso ganha outros contornos: quando, em Fevereiro de 2001, aceita o convite de Dias Loureiro, larga a chefia do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), a unidade de elite do MP, criada dois anos antes, com o objectivo de combater a criminalidade mais complexa, sobretudo a económica. «A informação que levo não me vai ser útil», disse, porém, Daniel Sanches quando abraçou o mundo dos negócios. À época, como hoje, vários colegas não ficaram convencidos. Afinal, recordam, foi a Sanches que, em 1999, o então procurador-geral da República, Cunha Rodrigues, confiou a missão de desenhar e pôr a funcionar o referido departamento. De acordo com magistrados ouvidos pela VISÃO, quando saiu para o BPN, Sanches conheceria como poucos as estratégias investigativas, os meios disponíveis... e a ausência deles, ou não tivesse sido precisamente a «falta de condições de trabalho» o argumento invocado para abandonar o DCIAP.

Em 2003, Dias Loureiro e Daniel Sanches concorreram, em listas opostas, às eleições da Académica de Coimbra. Nos últimos 20 anos, terá sido a única vez que não andaram de braço dado. Não sendo fácil precisar o momento em que cimentaram uma amizade aparentemente indestrutível, há quem considere que os laços entre ambos se fortaleceram devido à influência de Loureiro na nomeação de Sanches para o SEF, durante o primeiro mandato de Cavaco. Na SLN, o magistrado – em licença de longa duração desde 2001 – foi, entre outros cargos, administrador da Plêiade Investimentos e administrador da ServiPlex (Recursos Humanos) e da Vsegur (segurança privada).

A polémica do SIRESP…

Foi também pela mão de Dias Loureiro que, em 2004, Daniel Sanches chegou a ministro, no Governo de Santana Lopes, com a tutela de uma área que fora de Loureiro, a Administração Interna. Sanches protagonizou uma das maiores polémicas do efémero Executivo laranja quando, três dias após a vitória de Sócrates, em 2005, adjudicou o negócio do Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) a um consórcio liderado pela SLN, para a qual trabalhara entre 2001 e 2004. O contrato deste sistema de comunicações entre as polícias era da ordem dos 540 milhões de euros. O então ministro escudou a sua decisão num parecer oral do procurador Mário Gomes Dias, então auditor do MAI – e hoje vice-PGR – que atestou tratar-se de «um acto urgente». Mas novo parecer da Procuradoria invalidaria o primeiro. E o Executivo PS renegociou novo contrato com a SLN, ficando o SIRESP por 485 milhões de euros.

Ao contrário dos administradores das entidades do consórcio, todos constituídos arguidos por suspeitas de tráfico de influências e participação económica em negócio, Sanches não foi sequer chamado como testemunha ao inquérito, que acabaria arquivado pelo Ministério Público, em Março deste ano. O procurador encarregado do processo, Azevedo Maia, nem sequer inquiriu qualquer um dos dez arguidos. Entretanto, o papel de Dias Loureiro neste imbróglio foi amplamente questionado. O ex-ministro justificou a sua ausência de interesse com o facto de presidir à Erickson, uma empresa concorrente da Motorola, parceira da SLN no negócio. Mas, tal como informa fonte da PJ que acompanhou o caso SIRESP, «a Motorola era, desde a altura de Dias Loureiro no Governo, um dos grandes fornecedores de material de comunicações ao MAI», o que a tornava possuidora de «conhecimento privilegiado».

Este terá sido, à data, um dos motivos que levaram os outros quatro concorrentes a desistir do projecto e a questionar a sua imparcialidade, alegando ter-lhes sido fornecida pouca informação sobre as infra-estruturas a utilizar na montagem do SIRESP. Foram feitas várias reclamações e pedido um alargamento do prazo, mas, pouco tempo depois, dirigentes das quatro outras empresas interessadas terão chegado à conclusão de que o concurso já teria vencedor antecipado. Isso mesmo terá sentido Carlos Salema, ex-presidente do Instituto de Telecomunicações. Ouvido pela PJ, considerou os 65 dias dados pelo Governo para os concorrentes visitarem os 225 locais com infra-estruturas utilizáveis pelo SIRESP um prazo «manifestamente insuficiente», favorecendo assim «o concorrente que tivesse acesso a informação privilegiada».

… e o caso da OMNI

Em Dezembro de 2004, a compra de seis aviões Canadair para o combate aos incêndios florestais, decidida pelo Governo do PSD, constituiu mais um bom negócio para a SLN. A OMNI, do grupo de Dias Loureiro, representante exclusiva em Portugal daquelas aeronaves, já era responsável pelo aluguer de aviões à Protecção Civil. A decisão correspondeu a um contrato de 150 milhões de euros, assente num estudo pedido pelo MAI de Daniel Sanches a uma consultora, a Roland Berger. Pormenor relevante: a OMNI foi a única empresa do sector contactada no âmbito daquele estudo. Dias Loureiro alegou desconhecimento de qualquer assunto relacionado com a OMNI. A mudança de Governo acabaria por bloquear o negócio, mas a posição dominadora da SLN nesta área, e, em particular de Dias Loureiro, continuou sob suspeita. Em Setembro desse ano, Francisco Louçâ acusou-o de promover um negócio assente na continuação dos incêndios. Loureiro apelidou o bloquista de terrorismo político e anunciou que o ia processar. Ainda hoje Louçã aguarda a notificação…

Dez anos antes, Dias Loureiro, então titular da pasta da Administração Interna, anunciara a abertura de um concurso internacional para dotar Portugal de meios modernos de detecção e comunicação, necessários ao combate de incêndios florestais. Tinha cerca de 5 milhões de contos para investir na prevenção e combate aos incêndios. Prometia aviões de grande tonelagem, a «melhor tecnologia do mercado» e o fim das sucessivas suspeitas e irregularidades que envolviam os concursos para meios aéreos do Serviço Nacional de Bombeiros (SNB). A OMNI ganhou a concessão.

Dois anos depois, já com o PS no Governo e Jorge Coelho no lugar de Loureiro na tutela do MAI, a OMNI, uma empresa do grupo Plêiade, de José Roquete, ganhou, pela segunda vez consecutiva, a fatia de leão do fornecimento de meios aéreos a adjudicar no concurso do SNB, ainda que acusada pelas empresas concorrentes de «favorecimento» e «concurso feito à sua medida». O cérebro da Plêiade era agora... Dias Loureiro. José Roquete tinha-lhe dado 15% do grupo em stock options, a que somara mais 7% do capital para efeitos de distribuição dos lucros. O ex-ministro era também administrador executivo da OMNI. Armando Vara, secretário de Estado de Coelho, assinou a adjudicação a esta empresa. As preteridas – Heliportugal e HFS – justificaram os protestos com o facto de a solução excluída diminuir os gastos do SNB em mais de 200 mil contos, à época.

As suspeitas de favorecimento da OMNI repetiram-se em 1997, quando a empresa ganha o concurso para o fornecimento de três helicópteros ao INEM, destinados a operações de socorro. Antes de ser conhecido o caderno de encargos fixando o número e as características das aeronaves, já a OMNI adquirira o número de helis pretendido com as características indicadas no caderno....

Amizades das Arábias

Em 2004, um livro editado em Espanha sobre o poder e a influência de Alejandro Agag, genro de Azna – Los PPijos – ligava Dias Loureiro a El-Assir, um libanês citado como «traficante de armas», que o ex-ministro convidou para o casamento da sua filha com o filho de Ferro Rodrigues, em Setembro de 2003. Apesar de reconhecer a amizade com o árabe, Loureiro não gostou de ser associado a El-Assir, tendo garantido publicamente que iria impedir a utilização do seu nome em futuras edições da obra. «Até ao dia de hoje, nenhum advogado contactou connosco ou com a nossa editora para que o nome de Dias Loureiro seja suprimido do livro», esclareceu à VISÃO Nacho Cardero, um dos autores. Mas quem é, afinal, El-Assir? Influente em círculos do bloco central espanhol, em 1994 pediu ao Governo do PP cerca de 10 milhões de pesetas para intermediar um contrato de fornecimento de armas a Marrocos, através de Fundos de Apoio ao Desenvolvimento. Além dos seus negócios de armas com o Egipto, a Somália e outros países, o árabe, cujos rendimentos circulam habitualmente por contas de diversos paraísos fiscais, foi relacionado com escândalos de enriquecimento ilícito e branqueamento de capitais, envolvendo governantes da América Latina. Dono de mansões e estâncias de Inverno espalhadas pelo mundo, El-Assir foi discípulo e cunhado de Adnan Kashougui, ex-padrasto do falecido Dodi Al Fayed e pretendente da Princesa Diana, além de sócio das famílias Bush e Bin Laden, em vários negócios. O saudita é citado nas hemerotecas como um dos maiores traficantes de armas do mundo. Por seu lado, El-Assir é amigo do Rei Juan Carlos, com quem já partilhou diversas caçadas e foi por seu intermédio que Dias Loureiro conheceu o monarca. Assir era, igualmente, próximo do Rei Hassan II, de Marrocos.

Neste país, Dias Loureiro foi administrador da REDAL, uma empresa de águas e energia eléctrica que acabaria na posse do grupo BPN, via Plêiade. A concessão, que resultou num investimento de 250 milhões de contos, à época, e deu muito dinheiro a ganhar a Loureiro, segundo versão do próprio, não teria sido possível sem a ajuda e a influência do seu amigo, o ministro do Interior de Marrocos, Driss Basri, governante que morreu exilado em Paris após 25 anos de poder e depois de ser afastado por Mohammed VI do Governo marroquino. Este homem, que Dias Loureiro conheceu enquanto ministro da Administração Interna, com quem celebrou protocolos de Estado e visitava amiúde, foi processado por alegado genocídio de mais de 500 sarauis pelo juiz Baltazar Garzon, tendo deixado uma lista considerável – e em alguns casos, confessa – de tortura, assassínios, compra de votos e suborno de políticos. As imprensas francesa e marroquina garantem que nenhum negócio se fazia em Marrocos sem a sua bênção. Basri, a «Alcachofra», chegou, inclusive, a ser citado como portador de umas malas de «generosas contribuições» do Rei Hassan II para a campanha do ex-Presidente francês, Jacques Chirac, em cujo Governo se encontrava outro conhecido vértice deste triângulo de amizades: Charles Pasqua, ex-ministro do Interior, actualmente a ser julgado no processo Angolagate por alegado envolvimento no tráfico de armas para Angola, nos anos noventa.

Epílogo... ou talvez não

Dias Loureiro diz, após serem conhecidas as primeiras notícias sobre o caso BPN, que tem uma honra a defender. A sua versão é conhecida e pretende revelar o retrato de um homem que pouco ou nada sabia de comprometedor para o banco, apesar das suas funções na SLN, entre 2001 e 2005, onde ganhou, primeiro, 2 500 contos, e mais tarde 8 500 euros por mês «sem prémios de gestão». Já deu entrevistas sobre o tema, esclareceu o que queria, pediu para ir ao Parlamento. Afirma ter uma vida transparente. Admite que os contactos na política lhe facilitaram os negócios. E só quer uma coisa: «Que tudo se esclareça.»

* com Cesaltina Pinto, Sónia Sapage e Tiago Fernandes »


in VISÃO, 8/12/2008


sábado, 6 de dezembro de 2008





SÓCRATES E A LIBERDADE, por António Barreto in "Publico", 30/11/2008

«EM CONSEQUÊNCIA DA REVOLUÇÃO DE 1974, criou raízes entre nós a ideia de que qualquer forma de autoridade era fascista. Nem mais, nem menos. Um professor na escola exigia silêncio e cumprimento dos deveres? Fascista! Um engenheiro dava instruções precisas aos trabalhadores no estaleiro? Fascista! Um médico determinava procedimentos específicos no bloco operatório? Fascista! Até os pais que exerciam as suas funções educativas em casa eram tratados de fascistas. Pode parecer caricatura, mas essas tontices tiveram uma vida longa e inspiraram decisões, legislação e comportamentos públicos. Durante anos, sob a designação de diálogo democrático, a hesitação e o adiamento foram sendo cultivados, enquanto a autoridade ia sendo posta em causa. Na escola, muito especialmente, a autoridade do professor foi quase totalmente destruída. Em traço grosso, esta moda tinha como princípio a liberdade. Os denunciadores dos 'fascistas' faziam-no por causa da liberdade. Os demolidores da autoridade agiam em nome da liberdade. Sabemos que isso era aparência: muitos condenavam a autoridade dos outros, nunca a sua própria; ou defendiam a sua liberdade, jamais a dos outros. Mas enfim, a liberdade foi o santo e a senha da nova sociedade e das novas culturas. Como é costume com os excessos, toda a gente deixou de prestar atenção aos que, uma vez por outra, apareciam a defender a liberdade ou a denunciar formas abusivas de autoridade. A tal ponto que os candidatos a déspota começaram a sentir que era fácil atentar, aqui e ali, contra a liberdade: a capacidade de reacção da população estava no mais baixo. Por isso sinto incómodo em vir discutir, em 2008, a questão da liberdade. Mas a verdade é que os últimos tempos têm revelado factos e tendências já mais do que simplesmente preocupantes. As causas desta evolução estão, umas, na vida internacional, outras na Europa, mas a maior parte residem no nosso país. Foram tomadas medidas e decisões que limitam injustificadamente a liberdade dos indivíduos. A expressão de opiniões e de crenças está hoje mais limitada do que há dez anos. A vigilância do Estado sobre os cidadãos é colossal e reforça-se. A acumulação, nas mãos do Estado, de informações sobre as pessoas e a vida privada cresce e organiza-se. O registo e o exame dos telefonemas, da correspondência e da navegação na Internet são legais e ilimitados. Por causa do fisco, do controlo pessoal e das despesas com a saúde, condiciona-se a vida de toda a população e tornam-se obrigatórios padrões de comportamento individual. O catálogo é enorme. De fora, chegam ameaças sem conta e que reduzem efectivamente as liberdades e os direitos dos indivíduos. A Al Qaeda, por exemplo, acaba de condicionar a vida de parte do continente africano, de uma organização europeia, de milhares de desportistas e de centenas de milhares de adeptos. Por causa das regulações do tráfego aéreo, as viagens de avião transformaram-se em rituais de humilhação e desconforto atentatórios da dignidade humana. Da União Europeia chegam, todos os dias, centenas de páginas de novas regulações e directivas que, sob a capa das melhores intenções do mundo, interferem com a vida privada e limitam as liberdades.

Também da Europa nos veio esta extraordinária conspiração dos governos com o fim de evitar os referendos nacionais ao novo tratado da União. Mas nem é preciso ir lá fora. A vida portuguesa oferece exemplos todos os dias. A nova lei de controlo do tráfego telefónico permite escutar e guardar os dados técnicos (origem e destino) de todos os telefonemas durante pelo menos um ano. Os novos modelos de bilhete de identidade e de carta de condução, com acumulação de dados pessoais e registos históricos, são meios intrusivos. A videovigilância, sem limites de situações, de espaços e de tempo, é um claro abuso. A repressão e as represálias exercidas sobre funcionários são já publicamente conhecidas e geralmente temidas A politização dos serviços de informação e a sua dependência directa da Presidência do Conselho de Ministros revela as intenções e os apetites do Primeiro-ministro. A interdição de partidos com menos de 5.000 militantes inscritos e a necessidade de os partidos enviarem ao Estado a lista nominal dos seus membros é um acto de prepotência. A pesada mão do governo agiu na Caixa Geral de Depósitos e no Banco Comercial Português com intuitos evidentes de submeter essas empresas e de, através delas, condicionar os capitalistas, obrigando-os a gestos amistosos. A retirada dos nomes dos santos de centenas de escolas (e quem sabe se também, depois, de instituições, cidades e localidades) é um acto ridículo de fundamentalismo intolerante. As interferências do governo nos serviços de rádio e televisão, públicos ou privados, assim como na 'comunicação social' em geral, sucedem-se. A legislação sobre a segurança alimentar e a

actuação da ASAE ultrapassaram todos os limites imagináveis da decência e do respeito pelas pessoas. A lei contra o tabaco está destituída de qualquer equilíbrio e reduz a liberdade. Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu governo. O Primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas Temos de reconhecer: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. A passividade de tanta gente. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo…»


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